elogio breve
por Fernando Lobo
Do
poeta José Baião Santos, e sem necessidade de recorrer àquilo que,
tradicionalmente, qualquer colunista faz para adjectivar a vida dum autor e
torná-la mais apelativa ao voraz apetite do leitor, direi, duma forma
simplesmente realística, que o seu escrever, num aperfeiçoamento contínuo e
demorado neste seu mester da palavra,
não é um escrever fácil porque cada verso, cada estrofe é poesia de fino
recorte e do melhor que já tenho lido. E digo isto porque sempre que releio os
versos deste poeta amigo e companheiro de escrita em várias edições, verifico
que os mesmos são entrelaces de metáforas que o afasta, categoricamente, da
falácia doutros poetas para nos projectar no universo ideativo da fala de modo
a descobrirmos uma reentrância no espaço poético e ideológico da palavra.
Posto
isto, estamos perante um poeta que tem tanto de órfico como de e prometeico. De
órfico porque nas águas subterrâneas
da sua construção há muitos cristais de música cintilando ou muito de alma
musical. E de prometeico porque a
sua poesia em toda a extensão da linguagem lexical – um pouco à semelhança de
Prometeu - dá aos homens o fogo que este roubara aos deuses.
“Fogo”,
“Paisagem de estrelas”, “Magma”, “Memórias de iodo”, “Ventos enfunando a pele
dos dedos”, são imagens e signos que o leitor pode encontrar no seu livro
“MOMENTAneamente” (com fotografia de Maria do Rosário Veloso). Mas quem quiser
aprofundar melhor o trabalho deste poeta de grande qualidade, aconselho-vos a
ler os capítulos “Cinzas do Tempo” e ”Vocabulário Itinerante”, que faz parte da
coedição “Antologia dos Sentidos, da SeteCaminhos. Confidenciando-vos, direi
que da mesma editora, no livro “Dança Ritual”, no poema “As Casas”, há um vasto
corredor de paredes ladrilhadas onde podemos demorar o pensamento do olhar em
versos/frase como “hoje os homens silvestres constroem / as casas como o suor
das areias / junto ao céu".
Deixar
que o leitor faça uma sábia e justa apreciação crítica do poeta José Baião
Santos, na leitura da sua poesia, é a proposta, séria e honesta que vos faço,
no sentido do aprofundamento da obra onde apenas colhi o adjacente ao
verdadeiro fruto da sua poética.
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“A liberdade não tem essência; ao contrário,
é ela que
constitui a base de todas as essências”
(Sartre)
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Dá-me a tua mão
E vem dançar indefinidamente
Na espiral das estrelas, como se fosses uma pétala de
silêncio
Dimensionada no fermento das marés
Quero que saibas que hoje acordei com o vinho das palavras
Disperso pelos pomares
Tomado do ímpeto da dor e que nada mais me apetece
Senão
Desaguar na penugem das aves que se alimentam da caruma
do sol
Dá-me a tua mão e esquece
Todos os caminhos que ficaram para trás
Como uma reserva de esperança ou um resistente cordão
umbilical
Por onde o cálcio da vida
Refaz cada dia o litoral da tempestade
Tu e eu assistimos inconformados ao desembarque das
palavras
Nos compassos duma melopeia de salinas e vento cediço
Tu e eu de mãos dadas no coração rompemos a película da
luz
Para ver nascer
Um filamento de terra na concha da pele
Dá-me a tua mão
Prende-me ao teu destino O corpo que trago comigo perdeu todas
as suas forças
Antes de alcançar a glória de ver a nudez do sol
Não posso ouvir o uivo do deserto
Não posso ouvir a marcha dos exércitos
Não posso sentir o sangue deslizar nos braços das árvores
Não posso beber o veneno dos dedos
O corpo que trago comigo fraquejou no pior momento
Entrou em desequilíbrio no fio da vida
No momento de pisar o chão sagrado da incógnita
Esquece a mão que te dei
E vem desfibrar o fel das amoras
No meio dos bustos que enchem o salão de convidados
Lembra-te que não há ódio
Sem dor
Nem eu sei porque apedrejam as estátuas, os deuses de
mármore
Vem, já te disse
Não receies os rizomas do oceano
Se queres vingar-te ao menos nas crianças
Que ficaram à espera do eclipse das aves
Quando a poeira nuclear
Desfez as águas da minha gangrena
Verde e pestilenta como o
teu soneto genético
Dá-me o ardor da tua cintura
E vem dançar na poalha dos meus lábios
Com gestos de bailarina enfeitiçada
Tu e eu
Somos uma só cadeia de células vulneráveis
Unidas pelo hipotálamo das estrelas
E a nossa loucura
Vai-se diluindo nos litorais de uma velha península
deserta
Não é possível
Recomeçar a nossa dança no instante de constelações
acrobáticas
Quando está iminente o assalto dos predadores
No interlúdio da noite
Da noite cremosa Que estremece a alma trémula das
sentinelas
Dá-me a tua mão
Vou levar-te até ao centro da pista
Onde os pares um a um transpõem o meridiano da liberdade
Dá-me a mão de todos quantos passaram
Além dos estreitos e dos mares de algodão
Além das penínsulas
Além dos versos de girassol
Além dos espelhos Além das lendas da fome
Sem nos deixarem um pouco da sua voz do amor dos pássaros
A fina doçura dos astros
E vem dançar
Esta água ritual descendo das cercanias
Com reviravoltas de luz
Vamos dançar
Numa ondulação de cores
E de medos
Para consolidação do humanismo dos segredos
Ou talvez do cansaço das rimas e dos poderes
Vem dançar
Junto às janelas dum Universo com destino marcado
E o pés assentes
Na alma dos corais
Dá-me a cadência da tua pele
Em delírio
Sentir-te assim indefesa no calor da dança
Faz-me possuir a raiz do lodo
Que sobrevoa o sangue
E se em vez de te sentir eu pudesse respirar-te
Por certo não haveria todo o fulgor
Mas o amanhecer do desejo sobre um corpo de algas
Submerso
Dá-me a mão
Ou um beijo
Para redesenharmos os últimos compassos
Escritos na partitura do coração
Onde caiba a silhueta de um navio pintado por Turner
Ai a fala da rendição, ai a vontade de descrever
O círculo da liberdade por baixo do relevo de todos os
planetas
A pista de dança esperada
Para o ensaio geral
Do tambor de vime
Ai a vontade de dizer adeus
Às pontes de Maio semeadas no cereal quente
Ai o adeus, ai esta dança ritual
Circunscrevendo a espiral da mão
No dia das comemorações da falsa tabuada dos deuses
Ai o ritual dos cabelos
Evaporados por uma paixão sem
nervuras de cristal
Depois de sentirmos o ritmo
Do sangue
Rufar na resina da alma
Ai o aluvião da madrugada
De corpos exaustos
refulgindo na pira de incensos
perfumados
De corpos permeáveis às cinzas ácidas da embriaguez
© José Baião Santos in Dança Ritual
João Baião Santos, jurista, poeta e pedagogo, com mester
na palavra literária, é autor de inúmeros trabalhos literários e jurídicos e dos
livros poéticos MOMENTAneamente e Dança Ritual e co-autor na Antologia dos
Sentidos.
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