E fez-lhe sinal para que avançasse
[acendem-se mãos
voláteis
cintilam corpos por
dentro doutros corpos
surge o delírio na
polpa açucarada dum sexo
e queda a queda
regressamos ao possível oásis
apesar de tudo
conhecemos a sede e os secretos poços dos nómadas
perseguimos outros
passos lavrados nas areias da memória]
Al Berto in Apresentação da Noite – I Noite Próxima
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Era aquele o seu ponto de encontro de todos os dias com a
caridade benfazeja.
Vestia sempre de negro. Ali, toda encolhida, um corpo de
mulher reduzido a uma miniatura de criança, quase despercebida na soleira
daquela porta sempre fechada em que, raramente, alguém reparava pelo
desajeitado da traça de algum arquitecto do século passado em princípio de
carreira, estendia uma mão envergonhada, de dedos impressionantemente
esqueléticos e longos, tal mão de pianista, onde, de tempos a tempos, alguém
depositava míseros centavos. O rosto, esse, meio encoberto por um lenço preto
de pontas amarradas sob o queixo afilado, de magreza extrema, quase parecia o
de uma octogenária de tantas rugas lavrado.
Impressionava-o aquela mulher, sempre que por ali passava. E
ela, à sua passagem, levantava aquele olhar, que lhe parecia familiar, como se
numa atitude de súplica envergonhada, para logo esconder ainda mais o rosto, parecia-lhe que de propósito,
por detrás do negro do lenço. Dificilmente se lhe adivinhava a idade. O nariz,
exageradamente adunco, perfilava-se abaixo de uns olhos negros, que em tempos
terão sido belos e que só, de longe em longe, deixava visionar para agradecer
com um doce olhar, apenas, a quem depositava naquela mão uns escassos cobres.
Ele passava ali quase diariamente movido por força estranha
e inexplicada... sequer o fazia para lhe dar esmola. Algo estranho e
indefinível o levava a passar por ali sem ter, tampouco, necessidade de o
fazer. Cativava-o aquela presença, ao dobrar da esquina. E ali ficava largos
minutos em observação minuciosa. Não sabia se por compaixão se por qualquer outro
sentimento oculto, indecifrável, indefinível, que a razão não sabia explicar. Foi
o seu ponto de encontro de vários anos, talvez uns trinta... com aquela mulher
definhada num corpo de criança abandonado, com a caridade que exageradamente
diáfana, hipócrita e comprometidamente distraída nos seus afazeres, por ali
passava sem na triste reparar. Só por milagre ela não era esmagada pelos passos
apressados dos energúmenos, não fora ela ter escolhido aquele cantinho na
soleira daquela porta com esquadria mal aparelhada. Ali, sempre ali, chovesse
ou fizesse sol. Meia dúzia de tostões numa velha tijela de plástico que em
tempos fora azul, quase negra agora pelo surro que a cobria e onde eram bem
visíveis grossas côdeas secas de restos de comida.
Era quase a sua confidente muda, pois jamais com ela tinha
falado. A confidente dos seus pensamentos calados. Jamais trocaram palavra...
- Talvez até seja muda, quem sabe? (o seu pensamento, em
diálogo constante, com as suas inquietações permanentes)
Mal
dobrava a esquina, e, antes de por ela passar e depositar na sua mão uns magros
dez escudos, qual ladrão comprometido no acto de não saber roubar, avançava
meticulosamente para que ela lhe não fugisse da sua observação demorada a
partir do quiosque dos jornais a escassos quinze passos do seu ponto de
encontro. Comprava um, não importando sequer o título, que abria e colocava à
frente dos olhos sem, contudo, o ler. Dali observava largos minutos preso pela
sedução faiscante daquele vulto de negro vestido. Tentava adivinhar-lhe as
feições, ler-lhe o pensamento, mas, acabava sempre a sofrer com ela as
amarguras da vida. Até que um dia... lembrou-se. Algo se lhe desbloqueou no
cérebro. Como se fosse um raio faiscante, fez-se-lhe luz no mais remoto de si.
♦♦♦
Era uma longa fila que se acotovelava para entrar no
autocarro das sete da manhã, único, naquele tempo. Saía de Setúbal com destino
a Lisboa. À sua frente uma mulher morena, cuja idade, imprecisa porque oculta
por esmerada maquilhagem, rondaria os trinta anos. De longos cabelos negros
caindo despreocupados e num certo desalinho de encanto sobre os ombros.
Esvoaçavam, desordenadamente, ao sabor da brisa daquela manhã de outubro, que
trazia já consigo os prenúncios de um outono que se adivinhava chuvoso.
Continuava a dar sinais de impaciência...
Adivinhava-se-lhe, no olhar inquieto, certo nervosismo de
difícil compreensão. Pelo menos ele não encontrava motivos para que ela,
persistentemente, se voltasse para traz numa observação sobressaltada,
demorando-se nesta observação inquieta em certo ponto da fila que crescia.
Entraram. Ela saiu da fila e atrasou-se, ao que parece
propositadamente, como se estivesse à espera de alguém. Não havia lugares
marcados e a maior parte das pessoas iam-se acomodando na primeira metade do
autocarro, na medida do possível perto da janela. Ele dirigiu-se, como
habitualmente, para o fundo do autocarro, acomodou-se no banco corrido junto à
janela depois de correr a cortina azul escura na qual encostou a cabeça para
poder tirar três quartos de hora de sono até Alcântara, términus da sua viagem.
De imediato fechou os olhos depois de colocar a pasta que habitualmente usava,
tipo diplomata, sobre os joelhos.
Alguém se sentou a seu lado. Sentiu-o pelo leve roçar do
ombro de quem se acomodou, fazendo o aproveitamento do espaço do banco para
poder caber mais um. Ele nem sequer se deu ao trabalho de abrir os olhos e ver
quem era o acompanhante de viagem. Mas as suas narinas dilataram-se pelo odor
de certo perfume. O mesmo que minutos antes sentira na fila de espera para o
autocarro.
- Sentou-se aqui por perto... (pensou com os seus botões)
Na curva seguinte sentiu o contacto de um quente joelho no
seu. Parecia propositado. Arredou-se daquele contacto mas, desta vez, a
curiosidade levou-o a abrir os olhos e encarar o seu companheiro de viagem.
Afinal “ele” era “ela”, a mesma da fila do autocarro. A dona do agressivo
perfume. Ela sorriu-lhe... um cumprimento como se já se conhecessem há bastante
tempo e como se, entre os dois, houvesse algo comprometedor.
- Pura ilusão... nunca te vi nem mais gorda nem mais
magra... (ele em monólogo surdo; e encostou novamente a cabeça à cortina da
janela que lhe servia de almofada, disposto a retomar o que se tinha proposto: passar
pelas brasas até Alcântara)
Mas a dona daquele perfume, que mais tarde soube chamar-se
opium, insistiu:
- Olá, chamo-me Ana Maria... (disse em voz quase inaudível)
desculpe a invasão.
- E bárbara, invasão bárbara, devia acrescentar. Prazer, meu
nome é Luís. - Ele, em tom seco, quase ríspido, desejando por fim à intrusão.
- Está frio, já estou arrependida não ter trazido um casaco
mais quente. Em Lisboa deve estar mais frio ainda. Também sai na Praça de Espanha?
Desculpe a curiosidade. Não tem que responder. - Ela, tentando entabular
conversa.
- Não. Saio em Alcântara. Porquê?... - desejando ele que
terminasse ali a conversa.
- Credo... em que tom tão ríspido me responde. Que pena, eu
sigo para a Praça de Espanha. Incomodo? Se sim não faço mais perguntas. - Disse
ela em tom agastado mas sempre numa voz doce e silenciosa. E continuou...
- Sabe... é que depois, na Praça de Espanha, tomo o Metro
para a baixa; se fosse para aí poderíamos tomar uma bica em qualquer lado.
- Pois (e a vontade dele, de dormir, foi-se...), mas é que
eu não faço parte daquelas pessoas que têm a sorte de trabalhar no centro de
Lisboa. Se assim fosse teria vindo de comboio até ao Barreiro e a partir dali
de barco. Eu trabalho na Ajuda...
E a conversa continuou, daí para a frente, num diálogo quase
sem sentido, nos vários assuntos abordados. Ou melhor, aflorados, que em
profundidade sequer foram. Sobre o tempo, o “quase sempre engano dos
meteorologistas”, sobre o manto de pesadas nuvens que se viam sobre a barra do
Tejo ao passarem pela Ponte 25 de Abril, sobre a falta do chapéu de chuva que
não trouxera, «aliás, que nunca trazia consigo pois não gostava de andar com
chapéu de chuva», sobre certo local da cidade onde tinha que ir mas que não
conhecia...
Finalmente Alcântara. Não arredou o corpo, milímetro que
fosse, que permitisse a saída dele. Ficou ali, sentada, até o corredor do
autocarro ficar quase liberto dos passageiros a sair em Alcântara. Os demais
seguiriam para a Praça de Espanha. Como ela... pensava ele. Apetecia gritar-lhe
«arrede-se, deixe-me passar que ainda tenho que ir a pé até ao largo do
Calvário para aí tomar o eléctrico para a Ajuda», mas conteve-se, apenas, por
uma questão de educação. Ou talvez não. Quem sabe, se lá no fundo do seu
subconsciente não havia aquela vozinha a preferir dizer «que lhe apetecia mais
um pouco de conversa»?! Talvez saber mais pormenores acerca dela. Ou, quem
sabe, poder marcar um encontro para o fim do dia ou outra qualquer ocasião.
Levantou-se.
- Vamos? - Propôs ele, sem esperar qualquer resposta dela
pois não era esse o términus da sua viagem.
- Em boa verdade não me apetece nada sair aqui. Sempre se
está mais quente... deve estar um griso lá fora... - disse ela, levantando-se
enquanto se adiantava no corredor para a saída.
Ficaram ali a escasso meio metro da porta do autocarro,
enquanto eram acotovelados pelas pessoas que pretendiam entrar nele. Grossas e
geladas gotas de chuva feriram, inopinadamente, o rosto de ambos que,
desajeitados, nem sabiam o que dizer um ao outro em jeito de despedida. Ele
abriu o guarda-chuva descartável que trazia na mala; ela, aconchegou-se-lhe e
atreveu-se a pendurar o seu braço no dele em jeito de protecção. Situação
deveras embaraçosa para ele.
- Quer que lhe chame um táxi?
- Não. Vamos, antes, abrigar-nos ali. - Referia-se, ela, à
paragem coberta que começava a ficar vazia.
- Ora bolas, e eu que tenho que entrar às oito em ponto...
logo hoje que tenho pela frente o implacável Aloízio. - Lamentava-se,
entredentes como se consigo próprio falasse, ao que ela replicou:
- Implacável? Às oito em ponto? E se o autocarro avariasse
no meio da ponte? Como fazias?
Riu-se
da preocupação dele em cumprir horários. Propositadamente ou sem se aperceber,
tratou-o por tu. Meio caminho andado para o que aconteceu daí para a frente.
(Esta,
de quem se conta, era a guardiã daquela porta onde, diariamente, pedia o pão
para mitigar a fome.
Esta
que há muito estava enterrada no mais fundo das suas memórias agora
repentinamente avivadas por um reflexo de instantânea luz.)
- Espera.
Levantou-se de um salto do sofá que
naquelas horas transviadas e de loucura servia de cama também. Dirigiu-se à
janela, subiu a persiana de guilhotina cerca de um palmo e certificou-se que lá
fora estava tudo bem com a filha de sete anos que brincava com a amiga, da
mesma idade, enteada da vizinha do andar de cima. Aquele corpo nu, curvado na
janela situada ao nível da rua possibilitando apenas vislumbrar parte da cabeça
se alguém do lado de fora se desse ao trabalho de espreitar, despertou nele,
ainda que rendido da anterior refrega, ânsias desmedidas. Por instantes saiu da
janela. De cócoras, agora, procurava nos múltiplos álbuns musicais, de vinil,
espalhados numa desordem total pelo chão da sala, um que não tardou em
encontrar.
- Achei… - disse ela, esbaforida,
naquela voz da gaiata alegre e despreocupada que acaba por descobrir o
brinquedo, que um dia teve valor, há muito perdido no desarrumado daquelas mil
coisas já sem interesse e deixadas esquecidas no fundo mais recôndito do
armário e da memória.
Pô-lo a rodar no prato do gira-discos
de alta-fidelidade, coisa boa e única que conseguiu salvar dum casamento
esfrangalhado e desfeito. Pink Floyd em
Signs of Life. Os
acordes nostálgicos das cordas à mistura com o marulhar das vagas batendo nos
costados duma embarcação, pareciam gotas de orvalho que se desprendiam do éter
e vinham mergulhar nas profundezas daquele abismo paradisíaco chamado monumento
de mulher, que punha o mais exigente mortal, mesmo que frio como o mais gelado
glaciar, com a cabeça atordoada.
- Vem… (e fez-lhe sinal para que
avançasse) Anda, vem… - pedia ela enquanto massajava numa carícia demorada e de
veludo, que aturdia, o interior daquelas nádegas firmes e perfeitamente
modeladas, uniformemente bronzeadas no último verão na Ericeira.
O seu corpo debruçou-se, mais uma vez,
para a janela que mantinha subida a persiana no seu curto palmo de abertura. O
suficiente para espreitar a filha que continuava a brincar no passeio oposto,
ou para ver as pernas dos passantes apressados. Veio ele a saber, mais tarde,
quando ela extravasava nas suas confidências, que era hábito aquele desafio ao
ex-marido e, também, a um amante velho - quase o triplo da sua idade - que
tivera no fulgor dos seus ávidos vinte e seis anos.
- Vem... - pediu ela novamente. Foi uma
súplica, desta vez uma súplica rouca mais parecendo o gemer ferido das cordas
do violoncelo. Oferecia as firmes, espetadas e morenas nádegas ao desejo.
Entreabertas, as pernas, deixavam à vista a vulva meticulosamente aparada.
- Vem… oh, vem…- gemia agora. Aquele
vem era apenas um sussurro.
E olhava-o com olhar lânguido numa
oferta de prazer incomensurável. Um leve toque de cabeça (não o vulgar tique,
mas aquele trejeito já gasto de tão estudado e repetido) fez-lhe cair sobre o
rosto a farta franja, em leque, de uma cabeleira negra exageradamente negra.
Aquele olhar provocante, de mulher tropical, e de características
acentuadamente tropicais, desafiava-o para o inventar de uma nova origem,
qualquer outra maneira linda de fazer amor.
Ele, estirado nu naquele sofá-cama, gozava em silêncio aquele vulcão que
brotava lavas incandescentes de desejos.
Um vulcão prestes a explodir. Um vulcão em erupção constante. Na
semiobscuridade daquela sala, transformada em antro de luxúria, quase
depravação, flutuava no ar, misturado com as notas musicais de Pink Floyd que
continuava a rodar no prato do gira-discos, um agridoce odor a suor e a esperma
por lavar, que aquele corpo plúmbeo ainda exalava.
- Esta música é capaz de me fazer
cavalgar nua no dorso duro e sem sela dum cavalo selvagem, pelas longínquas
estepes africanas… noite e dia, sem parar. Não sentes o mesmo?
Perguntava ela, fazendo alusão à sua
terra natal: Moçambique. E as suas mãos começavam agora uma dança louca, que já
lhe era conhecida de outras horas, percorrendo as intimidades do seu corpo nu à
mistura com suspiros de prazer, que não tardariam (porque já lhe conhecia a
intensidade) a serem ouvidos do lado de
fora da janela.
- Fecha essa porra... - ordenou-lhe
ele, referindo-se à janela.
- Não. Quero que na rua, quem passa,
oiça os meus gemidos enquanto tu aí os sentes. - Retorquiu, enquanto se
certificava, pelo palmo da persiana aberta, se a filha se encontrava segura no
exterior onde continuava a brincar.
Começou-o a incomodar
aquela atitude depravada que sempre tinha. Uma atitude que ela levaria até aos
limites da sua intenção. Extravasava, mesmo, esses limites. Sabia-o bem.
Daquilo que dela conheceu, nestes longos nove meses de relacionamento a que
decidiu por fim, jamais deixou de consumar um acto a que ela se propusesse.
Começou a dar voltas à cabeça imaginando como sair daquela situação. Sabia o
quão iria ficar embaraçado, porque daí a poucos minutos ela estaria a fazer
solicitações entre gemidos e gritos de luxúria que se ouviriam na rua. Até era
capaz de abrir ainda mais a persiana, pois, maníaca como era, gostava de ser
observada enquanto gozava com o seu corpo. «Se viesse ao menos alguém
interromper a sessão…» (pensou), «…tocar a campainha, por exemplo…» (quase o
implorou, em pensamento, à divina providência).
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Alvaro Giesta in "entre nós CUMPLICIDADES" (contos, Calçada das Letras, 2015
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