Opinião

Do Livro e da Cultura © Gil Jouanard



Da "Poesia pura e poesia impura" diz o autor:

"Este acontecimento dificilmente programável a que chamamos poesia, apesar de ser exclusivamente um fenómeno da escrita, nenhum projecto ou intenção literária o conseguiria fazer acontecer sem resistência sob a forma de um texto arbitrariamente designado pelo termo "poema". Pois a poesia, que não deriva nem do assunto tratado nem da forma adoptada, não conhece nenhuma maneira de surgir que não a imprevista, fulgurante, de algum modo uma epifania (mas sem conotação religiosa).

Com efeito, é graças a um encontro casual de palavras que, extirpada do sentido comum, ela pode surgir da fricção ou do choque de dois, ou vários, vocábulos. A poesia é o brevíssimo jorro de faúlhas que a página, tomando aqui o lugar da estopa, saberá transmitir em chama. E, mesmo assim convém saber que nem a sua luz nem o seu calor iluminarão ou aquecerão o primeiro que aparecer: para muita gente, tratar-se-á de luz fria e pálido vislumbre.

Não existe "poesia em si"; o fenómeno ergue-se na esfera estritamente privada, a partir duma relação pessoal com as palavras da língua. Nada de parecido com o efeito de surpresa que leva alguém a dizer: "Olha, acho que isto me diz algo..."
De facto, a poesia não é o assunto dos poetas, é o assunto das palavras. Só se é "poeta" de maneira episódica, nem que seja Baudelaire; enquanto que as palavras dispõem em permanência da sua carga poética. Da mesma maneira, não é o apaixonado que suscita necessariamente o amor de alguém...

De resto, ela também tem os seus estados platónicos: quando acontece alguma coisa forte e singular que sentimos mas as palavras não conseguem manifestar. É por isso que nove décimos da poesia que se encontra em espera no mundo vão ficar inéditos: porque simplesmente as palavras não vieram atestá-la, trazê-la à luz do dia ou manifestá-la. E assim um enorme stock de poesia virtual permanecerá condenado a vaguear para sempre nos obscuros corredores do não-dito. É por isso que ela, a poesia, vem sempre de mais longe do que aonde as palavras são capazes de nos conduzir.
As raízes da língua nunca penetraram tão profundamente quanto a poesia que as segregou na manhã do mundo.

Já não se usa, parece-me, esta expressão "poesia pura"; e ainda bem. Pois nem a experiência nem a razão permitiriam, por muito bem intencionados ou conciliadores que fôssemos, discernir claramente de que espécie ou categoria de poesia se poderia tratar! Talvez se possa designar assim aqueles poemas de que se supõe ter sido excluído todo o parasita em proveniência da Filosofia, da História, da anedota factual.
Poesia pura devia ser, no fim de contas, aquela que tivesse sido expurgada de qualquer vestígio de vida e que, sendo literariamente "insensata", não procurasse senão a harmonia, o ritmo, até a melodia, e que por isso não seria nada mais do que... música!
De facto, certos poetas foram em alguns momentos tentados por esta metamorfose do sentido em sons (...).
Ora, é justamente quando a música, ao soltar-se do ascendente do ritmo, vem propor sentido que ela se põe a dizer vivamente algo ao nosso cérebro, muito mais do que aos nossos músculos!
A fortiori (=por maioria de razão), a poesia não tem pois legitimidade (ou ambição) semântica senão quando se inscreve sem ambiguidade na espessura da língua - lá onde o sentido submerge ritmo e melodia.

A "poesia impura" é a que não hesita em entranhar-se na floresta pluvial dos sentidos misturados. É a que se ajusta mais seguramente àquele impulso que a fez advir, na alvorada dos tempos humanos.
Entre a "poesia pura", próxima do nada semântico, e a que está carregada com uma sobrecarga de sentido, há lugar para uma poesia em roupagem simples, oferecendo-se à maneira dum  geode (=cavidade oca no interior duma rocha, revestida de cristais) antes de ser rebentado: o tesouro está escondido lá dentro. Sob a sua crosta áspera, austera, encontram-se preservadas grandes reservas de eloquente não-dito."

©Gil Jouanard, "Do Livro e da Cultura", Gradiva Publicações, S.A., 2013


1 comentário:

  1. Artigo publicado na revista literária impressa A Chama n.º 8, a pg. 20 (2.º trimestre 2014) e que aqui se dá por reproduzido.

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