Regresso
amiúde a diversos livros; desta feita apeteceu-me reler
“Travessia”, de José Félix, obra que veio a lume em 2008, sob chancela da Edium
Editores. Este título era, na altura, o quarto livro editado pelo autor,
surgindo após “Geografia da Árvore (a reinvenção da memória) ”,
Col. Poéticas de Lav(r)a, Múchia Publicações, Funchal, 2003, “Chá das
Quatro”, em parceria com Aníbal Beça, integrado no livro de haicai “Folhas da
Selva”, Editora Valer, Brasil, 2006 e, sob edição de autor, “Íntima Loucura”,
de 2007.
Na altura, mencionei que José Félix merecia ter outra
pessoa, com mais experiência e conhecimento, a fazer a apresentação desse seu
novo volume. E não era por uma questão de modéstia ou de humildade da minha
parte. Nem uma nem outra eram, e continuam a ser, maleitas de que padeça em
excesso. Era uma simples, clara e cristalina constatação, dado estarmos
perante, a meu ver, opinião que continuo a manter, um dos nomes mais relevantes
da Poesia que se escreve em português.
Conheço o José Félix há um bom par de anos. Primeiro,
através da Internet, sobretudo a Lista Escritas, que continuo a considerar a
melhor das que existem em Língua Portuguesa, da qual José Félix é o moderador.
Depois, em Leiria, deita feita na apresentação da Antologia Escritas, projecto
de que me orgulho de participar desde o número um e que só existe e se mantém
activo porque o José Félix não desarma. É um activista da Poesia puro e duro.
O José Félix representa para mim uma espécie de omnívoro da Poesia porque procura, investiga, estuda o fazer poético. Aliás, nunca se sabe sob que forma se apresenta a sua Poesia. Mas mais importante do que descortinar a vestimenta que o seu poema trará, é saber que se vai ler com gosto o que se nos apresenta após a abertura da mensagem electrónica.
Agora, uma coisa é a leitura de esparsos, outra bem diversa
é a leitura de um livro. Este é um objecto, mas transcende a sua condição
física. Na Poesia, naquela que de facto conta, é um objecto meditado, pensado
ao pormenor. Nasce para ter vida própria, para fazer parte da vida de outro,
outro que não é o poeta, o que o gerou.
Posto isto, entremos pois neste universo chamado: “Travessia”. José Félix nasceu em Angola, licenciou-se em História e reside em Portugal. Esta sinopse biográfica, concisa, talvez em demasia, mostrou-se-me deveras importante para o desbravar deste seu: “Travessia”.
Ensina o dicionário que travessia é o “acto ou efeito de
atravessar”. Continua afirmando que é “passagem através de uma grande extensão
de terra ou mar”. E conclui dizendo que também é: “vento contrário à
navegação”. Nada há de mais correcto.
Esta obra, composta por dois ciclos, que interagem entre si,
cada um com doze poemas, como doze são os meses subjacentes à epígrafe de Jorge
de Sena:
“ As Quatro Estações eram Cinco / O verão passa e o
estio se anuncia / que o outono se há-de ser e logo inverno / de que virá
nascida a primavera. / Mais breve ou longo se renova o dia / sempre da noite em
repetir-se, eterno. / Só o homem morre de não ser quem era.//”
dá-nos, no primeiro, a planificação da passagem e, no
segundo, a sua impossibilidade, através da adversidade, para simplificar, a
acção do vento contrário. Leio desta forma dado que o que se me apresenta é a
condição do exílio, própria de quem sente presente a ausência concreta, porque
distante das suas ou de imaginárias raízes.
A melhor imagem que encontro para exemplificar o exílio é a
de uma criança no ventre materno. Ao sair, ao ser expulsa desse abrigo, desse
porto de abrigo, ao sentir o corte do cordão umbilical, continua em si,
radicalmente gravado o vínculo que a acompanhará para sempre. Este é, no fundo,
o plano dos afectos, a consciência do exilado.
E é por esse motivo, na minha leitura, que o poeta escolhe,
e bem, a epígrafe de Jorge de Sena, onde no ciclo das estações, na observação
de uma espécie de eterno retorno, “só o homem morre de não ser quem era”.
Daí a necessidade da planificação cuidada que o isomorfismo
dos poemas do primeiro ciclo bem evidencia. Nessa fase, o poeta recolhe as
palavras essenciais para a elaboração do seu ritual, mas tendo plena
consciência de que o exílio, ou a sensação deste, é permanente, o que o leva a
afirmar, logo na abertura:
“há uma dor peninsular / nas arestas das casas, nas fissuras
/ e na palavra memória (...).//”
E tanto assim é que recorre à ideia de península que vai
sendo trabalhada ao longo deste ciclo, o primeiro, intitulado exactamente:
“Travessia”. Alguns exemplos, no segundo poema: “nas margens da península
deserta”, no quarto: “a península coberta”, entre outros. Mas chamo a
atenção ao oitavo poema: “(...) a dor da ilha / procura uma passagem, o tal
istmo (...).//”
Apesar de tudo, o poeta compromete-se a prosseguir no seu
intuito de regressar, porque “(...) o tal istmo / que a linguagem tem através
da escrita, // onde se vê o voo das garças brancas / arquitectando as dunas da
península. //”
Voltando ao meu fiel conselheiro, o dicionário, este
recorda-me que península, palavra fundamental pela imagem que em nós desperta,
como não poderia deixar de ser, se repete ao longo deste volume por doze vezes,
aparece definida como “terra emersa que sobressai de um continente ou de
uma ilha, a constituir uma saliência bem individualizada, ligada apenas ao
conjunto de que faz parte por uma estreita faixa denominada istmo, circundada, assim,
quase totalmente por mar.”
No poema a que chamei a atenção, o oitavo, eis que me surge,
de novo, a imagem da criança na palavra ilha, desprovida de um vínculo real,
palpável com o seu espaço inicial. Agora é homem e afirma-se como herdeiro de
um passado, repleto de outras paisagens, sonoridades, aromas, palavras. Todo
esse manancial, do qual não se pretende despojar, dá-lhe a argamassa essencial
para a sua poética, para a elaboração do seu plano de acção, de regresso, de
saída da sua condição de exilado.
“um gesto no cabelo vem de longe. / traz o sabor silvestre
das amoras, / os caminhos estreitos onde as mãos // entrelaçadas ficam lendo as
margens / adolescentes, e na cor da língua, / os frutos rubros que a manhã
aquece. // aduelas velhas prendem o jardim / nos olhos do menino que persegue /
o voo da gaivota na península //”
e este décimo primeiro poema termina desta forma:
“ do vento surge a cinza do princípio.// ” e o
derradeiro poema deste primeiro ciclo começa com: “eu sei que tens a dor à tua
espera.” E termina:“(...) esperas, impossível, a palavra, / a que germina no
coito de um búzio, / e sopra sob a pele da noite nua.//”
Recordo, travessia também significa “vento contrário à
navegação”. Como escreveu Fernando Pessoa: “o homem sonha, a obra nasce”. E se
o poeta elaborou o seu plano, reuniu os seus artefactos, a sua matéria plena de
sons e palavras, só lhe resta o cumprimento. Eis que surge o segundo ciclo
intitulado: “o país das águas”.
País, pátria, útero, ponto de partida radicalmente das águas.
E o poeta vai ao encontro do seu desígnio, da sua demanda íntima através do
ofício da escrita: “ promontório aberto é a fuga / para o país das
águas. / a península é a lembrança rasteira / duma carícia de afectos // que
atravessa o corpo na idade da areia. / / Anuncia neste mesmo poema, que abre o
segundo ciclo, que:
“ há sorrisos na passagem das aves //”
É a utilização do instrumento da memória. Um instrumento
difícil da oficina poética, que tanto nos traz a recordação do que desejamos
como o seu reverso, mas cujo manuseamento se torna urgente e necessário. Como
menciona o próprio poeta: “ há um rio no país das águas. / nas margens, o meu
pai / dá-me a explicação dos pássaros.// (...) / fico a saber que há
sempre um começo e um fim / (...) / e o meu pai, a substância e o espelho. / eu
tenho um deus comigo e eu não sei. //”
Regressando à memória, desta feita à memória cultural,
completemos pois a citação de Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a
obra nasce”. Ao empreender esta jornada íntima, no cerne de si próprio, através
dos escombros, vai-se encontrando cada vez mais próximo do ponto inicial do seu
próprio ciclo: “ a seiva da pronúncia no limbo / da semente regenerada /
navegam sons, antigos, / da geografia adolescente //” (ou) “no abraço das
águas, a regeneração do corpo /”.
No entanto, antes de prosseguir, há que regressar à palavra
península, fulcral neste poemário, que surge transfigurada neste segundo ciclo,
aqui, n’ “o país das
águas”, é, como já referi, “lembrança rasteira” para se
tornar “península perdida”, expressão inserta no quarto e no sexto poema.
O poeta sabe que o regresso não será mais do que uma
quimera e que continuará cativo à sua condição de exilado, dizendo, inclusive,
no sétimo poema deste segundo ciclo o seguinte: “ entro na água como saí do
ventre / da minha mãe, imponderável, suspenso / no líquido primordial //” e, um
pouco mais à frente, no mesmo poema, continua: “ a remissão da viagem esconde /
o rosto nas mãos de sangue do cordeiro degolado / persiste a culpa da promessa,
e uma / casa não é uma casa / na fonte do desejo com corpos apodrecidos /
dentro dela. //”
Agora, revendo a sua história, sabe que é este o tempo da
construção. O tempo certo da sementeira. O ritmo redescoberto das estações. E o
poeta observa-o, compreende-o. Reconhece os traços que se repetem ano após ano,
no desvelar das estações. Mas sabe que é um mero espectador que tenta decifrar
o perpétuo movimento com palavras e é pois nas palavras que radicará o seu
refúgio, o seu abrigo, o seu ventre inicial: “ e o meu corpo está aonde vai a
água / o meu corpo está no vento / no ventre da casa conquistada à palavra /
rude e simples e grávida //”, e é nas palavras, e por palavras, que ergue a sua
nova dimensão, aquele que quis e que soube cruzar a distância demandando a raiz
e desafiar a adversidade do vento, depurando e transformando em arte os
escombros da memória própria ou inventada: “a água é o princípio do lábio /
submerge o corpo do sangue do cordeiro / na pronúncia da primeira terra. //”
Mas observa e aprende, descreve e inscreve: “ na gávea dos sentidos há o país das águas”.
Na percepção que só no íntimo encontrará o objecto da sua
demanda, mesura o tempo de chegar, de construir um porto, um cais. Dar-lhe um
nome que corresponda ao encontro consigo ou, mais concretamente, com as
palavras, sobretudo com a palavra casa ou ventre.
Se iniciou com um isomorfismo omnipresente no primeiro ciclo, com poemas de catorze versos, se prosseguiu no segundo com um jogo polimórfico, o ancorar só se poderia dar com os mesmos catorze versos iniciais, mas recorrendo a uma estruturação diferente, aquela que a casa da Poesia lhe oferta, guardada que está através dos tempos: o soneto, mas em verso branco porque há em si vestígios da demanda empreendida. Novos caminhos que se descobrem na sua memória porque o acto poético é um acto de vida: “ (...) beijo o mar / como se é o ventre de minha mãe / (...) / demoro na colecta da semente // e no apetite da voragem / morro / abraçado ao tronco do esquecimento; / enfim, chegado à terra da alegria.//”
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© Xavier Zarco, poeta, é pseudónimo de Pedro
Baptista, editor da Temas Originais
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Artigo
já publicado na revista literária impressa A Chama n.º 3 de Julho e Agosto de
2013 a pag. 10 e 13 e que aqui se dá por reproduzido

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