A essência do acto poético
© Cristina Fernandes, jurista e poeta,
Há
na poesia um crepitar de fogos que acendem a alma do poeta, convergência de
chamas que conjugam esse incêndio imenso que é a poesia. O nascimento do poema
é esse registo raro, essa afluência de saberes ancestrais que sintetizam a
harmonia do todo o Universo.
Como nasce então o poema? -
múltiplas são as respostas, na diversidade complexa que integra a alma de cada
ser, quando se acende a diversidade de sons, essa paleta de mil tons, arco-íris
ora encantado, ora desencantado, onde o poeta (re)encontra a magia integrada de
cada olhar, e mergulha assim, nesse manancial imenso e inesgotável que é o
espaço etéreo onde a poesia se revela.
Mas a poesia é também esse
território de sentires sufragados pela dor, local de desencantos amordaçados,
liturgias sem esperança, pântanos onde as palavras se embriagam do outro lado
da luz, onde só o caminho do amor é viável nessa devolução inteira à própria
alma.
Sendo a escrita poética
transversal à natureza humana, condição de seres encarnados que procuram esse
toque transcendente que (re)liga a humanidade a um saber sublime, onde a poesia
se manifesta como "Deusa da Palavra" que sabe tocar o coração dos
sonhos onde habita a luz mais recôndita que ilumina o lume encantado de cada
palavra sonorizada e silenciada.
O poema é essa estranha respiração
que se anuncia no momento mais inesperado, espaço onde a alma se espelha na
mestria da intuição, tal olhar de criança onde flui um todo unificado.
Explicar a essência do acto
poético será sempre um exercício incrédulo, pois qualquer critério racionalista
despoja o grito galopante que desencadeia o poema, onde rebentam ondas dum mar
que só o poeta conhece, quando as palavras se aninham do lado certo (ou errado)
do coração.
É nesse desbravar duma
senda imprevisível de sonhos exilados, depuração emergente das sombras, abrigo
temporário onde a alma se desabriga para se abrigar um elo mais acima, uma
oitava acima, que se acende a plenitude do poema.
A inspiração, essa estranha amante surge no brilho mais distante duma
estrela, no silêncio que aperfeiçoa a linha ténue da madrugada, na concavidade
de saber receber e aceitar, na beleza rara das conchas e búzios que dão à
praia, no eterno saber das águas.
Assim, o poeta é o receptor do acto da criação, quando reconhece nas
veias das palavras, o caminho que o reconduz a si próprio, como a música que
ondula ao ritmo das marés, como os murmúrios dum vento desafiante. Em cada
chamamento, o poeta sabe responder ao apelo, à provocação intrínseca que cada palavra lhe suscita, nos
mais diversos sabores e odores.
Todos os partos de palavras
são singulares, como único é sempre o poema que nasce na alma do poeta, esse
momento que a razão desconhece, os trilhos sibilinos da simplicidade que
conduzem ao coração. É a capacidade intuitiva que transporta o poeta até ás palavras, ou
talvez as palavras até ao poeta, quando elas procuram uma forma de se
materializarem na profundidade etérea de cada ser.
Quando acontece essa
religação com a alma, há um reconhecimento da rota sublime onde as palavras se
posicionam como estranhas bailarinas, numa dança ora suave, ora tempestuosa,
que fazem o poema acontecer. Nessa dança que pode ser pungente, o poeta criva
pétalas doces e inocentes de amor, e espinhos arvorados na dor do desamor.
O poeta caminha assim, nessa esgotável fonte de
palavras, inesgotável sabedoria do sentir, e assim a desidentificar-se na
procura do seu eu mais profundo, onde só o saber intuitivo chega.
Constitui também parte integrante da essência do acto
poético, a extravasão duma rebeldia que contraria os limites das margens, onde
o rio das palavras se redefine numa vontade de desfragmentar os contornos
padronizados.
Dentro de cada poema vive e viverá a alma do seu
mentor, que encontrou no saber fundeado as suas raízes ancestrais, onde aflui a
fundura das águas (da alma) e a volatilidade dos fogos iniciáticos. Como uma
espiral evolutiva e ascendente, assim se transmuta a essência do acto poético,
num novo e raro momento... pois, a poesia é esse eterno acontecer...
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Nota da redacção: Artigo já publicado na revista literária A Chama n.º 3 de Julho/Agosto 2013, a pag. 27 e que aqui se dá por reproduzido

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